4 de julho de 2012
Alguns dias de atraso, mas o assunto ainda vale o post. É que nesta segunda tivemos um marco, um momento que vai influenciar a forma que você, eu e todo o mundo vai pensar e usar moda. É como na cena clássica do azul cerúleo de “O Diabo veste Prada”: o que foi apresentado lá nos desfiles de Alta Costura a 9162 km de distância vai mexer com a gente aqui. E quando se trata da Maison Dior o mundo dá uma atenção redobrada para as mudanças: fazer com que as mulheres do globo repensem — e mudem — a estética das suas roupas é uma característica da marca desde as primeiras criações de seu fundador, Christian Dior.
Desde a queda do espartilho por Paul Poiret, nos primeiros anos de 1900, as mulheres se refugiaram nas formas mais soltas e masculinas para viver a sua nova (e dura) realidade do início do novo século. E aqui, tão importante quando a nova forma das roupas é o fato que elas começaram a se vestir sozinhas! Imagina só a sensação de liberdade e independência. E assim as mulheres começaram a rever seu papel na sociedade, justamente quando esta mais precisava dela — foram 2 grandes guerras em 30 anos. Só que depois de trabalhar duro para cuidar dos filhos durante a guerra, as mulheres queriam voltar a sonhar. Como disse Che Guevara “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás“. E assim, inspirado por estes desejos mais “românticos” (que talvez nem as mulheres sabiam que tinham), Christian Dior criou a estética mais feminina do séc.20, o “New Look” — este visual de busto justo, cinturinha marcada e saia volumosa.
O sucesso da sua coleção de Dior apresentada em 1947 entrou para a história e marcou a identidade de toda uma década, vestindo as boas moças (e princesas como Grace Kelly) nos anos que se seguiram. Mas, infelizmente, o costureiro (como eles eram chamados na época) morreu 10 anos depois e seu jovem pupilo, um tal Yves Saint Laurent, assumiu a Maison. Porém ele logo saiu para fundar sua grife homônima e revolucionar nossas vidas (várias vezes) de lá tempos depois, seguindo os passos do seu mestre. Durante a faculdade de moda, o meu primeiro grande trabalho foi sobre Christian Dior. A professora olhou para cada aluna e escolheu um estilista para a gente fazer uma apresentação. E aí eu conheci John Galliano.
Ahhh a estética maximalista do Galliano! Mudou minha vida. De verdade. Ali eu vi moda (até então eu fui parar na faculdade por gostar de estilo e comportamento) e comecei a entender como ela funciona. Galliano nasceu em Gibraltar, território inglês que fica ali no finzinho da Península Ibérica. Eles falam inglês, a soberana é a Rainha, o dinheiro é a libra esterlina, mas o sangue latino corre nas veias de lá. Assim era a estética dele: a liberdade de moda londrina com a intensidade dramática da Espanha (tipo Shakespeare com Almodovar). E foi deste o tempero que o todo-poderoso Bernard Arnault (dono da LVMH e marido da Salma Hayek) acreditava que a então decadente Maison Dior precisava em 1996 — 50 anos depois do “New Look”.
E Galliano fez uma revolução na moda minimalista dos anos 90 com sua teatralidade: das roupas, aos desfiles e campanhas. Novamente a Dior atendia aos desejos das mulheres que queriam se livrar da dureza e rigidez do século passado, dessa vez de uma forma mais divertida e expansiva (típicos dos anos que Netuno, o planeta que a inspiração, passava por Aquário que foi 98 a 2011). Elas já tinham conseguido se posicionar no mercado de trabalho e conquistado sua independência financeira, e agora queriam se redescobrir como mulheres femininas neste novo contexto. Sabe quem representa bem esta mulher dos anos 2000? Carrie Bradshaw, a heroína de Sex and the City.
Estudando astrologia é impossível não traçar um paralelo entre a era de Netuno em Aquário e a era do Galliano na moda. Netuno é o planeta que rege a inspiração, a criatividade e as artes e faz transformações no nosso senso estético sempre que muda de signo (o que ocorre a cada 14 anos) pegando as características dele. E os primeiros anos de 2000 foi marcado por musas extravagantes — pense em Spice Girls, Britney Spears, Amy Winehouse, Evanescence, Beyoncé e Lady Gaga. E o último ano de Netuno em Aquário foi justamente 2011, ano que ele foi afastado da maison (McQueen que também tinha uma estética extravagante morreu em 2010).
A saída de Galliano da Dior foi brusca e inesperada e a escolha do seu substituto, pelo mesmo Bernard Arnault, não poderia casar melhor com esta fase de mudanças estéticas…
Todas as críticas sobre a estreia do belga Raf Simons falavam do encanto que era o cenário para a apresentação da coleção, salas interligadas com peônias das mais variadas cores. Elas pareciam mostrar a intenção do estilista de se ligar com o legado do fundador da Maison, como a Cathy Horyn do NY Times disse: “Christian Dior amava flores e as cultivava em sua casa de campo. Simons ama cores intensas”. É uma volta do romantismo, mas que não tem nada de ingênuo. 
Mas o que eu achei mais interessante deste desfile não foi a proposta de New Look para a mulher 2012, mas como Raf dividiu opiniões entre quem assistiu o desfile ao vivo e aos vorazes críticos do real time da internet (o tipo de gente que posta nas redes sociais “E esse desfile pareceu alta costura?”. Um desfile tem que parecer ou ser de alta costura?). Talvez seja Raf dizendo que para entender a nova estética que ele está propondo a gente vai ter que parar de julgar apenas pela capa e começar a ler, pelo menos, a orelha do livro.
E não é que isso faz sentido olhando para a nossa geração? A gente já expôs nossa vida na internet, de fotolog à instagr.am, e qual a diferença? Nos tempos de fotolog fazíamos exposição da figura com fotos de todos os ângulos (e caretas) imagináveis, agora na era do instagr.am compartilhamos nossas ideias e visão de mundo. As pessoas já viram a capa, agora querem conhecer um pouco melhor o conteúdo da outra.
O release prometia uma revolução de formas e proporções, mas eu achei mesmo que o novo estilista quis causar uma revolução nas nossas ideias colocando a gente pra pensar, como a Robyn Givhan (a única jornalista de moda que ganhou um Pulitzer!) bem disse ao terminar a sua crítica: “Suas roupas são sempre tão simples que você precisa olhar por um tempo até perceber o pequeno movimento ou o jeito magistral que o vestido de crepe preto cai sobre o corpo. Foi o melhor tipo de estreia: uma que promete uma conversa reflexiva”.
Já estou ansiosa pelas próximas coleções desta nova fase da Maison Dior. E você?
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